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70 rev port estomatol med dent cir maxilofac. 2020;61(2):64-71
da amostra escova os dentes diariamente, 24,1% utiliza elixir de cuidados de saúde oral, à falta de colaboração nos tratamen-
oral e 7,1% faz uso de fio dentário. A reduzida adoção de hábi- tos médico -dentários, fazendo com que os dentes afetados por
tos adequados de higiene oral pode estar relacionada com cáries sejam mais frequentemente extraídos do que trata-
fatores físicos, económicos, comportamentais, bem como com dos, 6,31 e/ou devido à alta prevalência de doença periodontal
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o escasso número de médicos dentistas e cuidadores dispostos em pessoas portadoras de deficiência intelectual. Tal é, aliás,
a prestar serviços preventivos neste grupo populacional. 9 verificado noutros grupos populacionais vulneráveis, como é o
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Noutras populações portadoras de deficiência, encontra- caso dos pacientes psiquiátricos, em que a grande maioria
mos igualmente resultados aquém do desejável no que se re- dos indivíduos enfatiza a extração dentária como a única ex-
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fere à higienização oral. Num estudo relativo a atletas porta- periência vivenciada na consulta de Medicina Dentária.
dores de deficiência intelectual, participantes do Special Em suma, a evidência sugere que os hábitos de higiene e
Olympics Special Smiles na Bélgica, verificou -se uma diminui- saúde oral inadequados são mais prevalentes na população
ção no número de atletas que reportam higienizar a cavidade com deficiência do que na população sem deficiência.
oral pelo menos uma vez por dia, de 84,6% em 2008 para 79,3% Como limitações do nosso estudo enfatizamos o facto de
em 2013. Num outro estudo foi reportada uma inadequada este ser realizado em amostras de conveniência que poderão
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higiene oral como a principal causa de doença periodontal em não ser representativas da população geral. Adicionalmente,
pessoas portadoras de algum tipo de deficiência, salientando a amostra da população sem deficiência poderá apresentar
ainda que existe uma relação entre o nível de higiene oral e o algum enviesamento na medida em que são pacientes de uma
grau de deficiência. clínica dentária, e pela existência de uma ligeira disparidade
No nosso estudo foi também observada uma menor percen- na distribuição das características género e idade face ao gru-
tagem de visitas ao consultório médico -dentário nos indivíduos po de comparação. Para além disso, e tendo em conta que, por
com deficiência (28,4% vs 59,2%) possivelmente devido às inú- vezes, os indivíduos tendem a sobrestimar os seus comporta-
meras barreiras que esta população encontra no acesso a ade- mentos reais, por influência do conhecimento prévio do que
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quados cuidados de saúde oral, desde condicionantes intrínse- seriam considerados hábitos desejáveis/ideais e pela aceita-
cas, socioeconómicas, barreiras relativas à acessibilidade e à bilidade social das suas respostas, consideramos que, à se-
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reduzida perceção acerca da importância da saúde oral. Tam- melhança do que acontece noutros estudos, os nossos resul-
bém Liu et al. e Pradhan et al. observaram que 76,4% e 73% tados possam constituir uma visão otimista da real situação
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dos inquiridos, respetivamente, não visitaram o médico dentis- atual, pelo que devem ser envidados esforços no sentido de
ta no último ano, valores estes próximos das estimativas para promover adequados hábitos de higiene oral.
outros grupos desfavorecidos, como é o caso dos sem -abrigo. 27 Salientamos assim que a importância de avaliar tanto a
A ausência de perceção da necessidade de tratamento perceção de saúde dos pacientes quanto a presença ou ausên-
como principal causa para não visitar regularmente o médico cia de hábitos de higiene, reside na necessidade de ter dados
dentista foi também referida. Essa ausência de perceção sur- precisos para, em futuras linhas de investigação, planear e
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ge principalmente pela falta de dentes, por simplesmente con- desenvolver programas de promoção de saúde, ajudando a
siderarem desnecessário, ou pela ausência de dor. Tal facto orientar as políticas de saúde oral e contribuindo deste modo
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parece não ir de encontro aos resultados obtidos no nosso para a definição e priorização do uso socialmente apropriado
estudo, especialmente no que refere à população com defi- de recursos.
ciência, já que 75,2% destes indivíduos afirmaram sentir ne-
cessidade de algum tipo de tratamento.
Note -se ainda que a percentagem de indivíduos que foram Conclusões
a uma consulta de Medicina Dentária por motivo de rotina ou
aconselhamento médico, assim como a utilização de fio dentá- Os comportamentos de saúde oral da população portadora
rio foi superior no género feminino. Ainda assim, é neste grupo de deficiência intelectual em estudo são consideravelmente
que encontramos uma autoperceção mais elevada da necessi- inferiores aos da população sem deficiência. Os resultados su-
dade de tratamento médico dentário, o que evidencia uma maior gerem que a população portadora de deficiência intelectual
preocupação e exigência das mulheres face à saúde oral, à sua em estudo apresenta comportamentos de saúde oral que cons-
aparência e à qualidade de vida. Outros estudos 29-31 observam tituem fatores de risco para a condição oral, situação esta evi-
igualmente relações significativas entre o género e os compor- denciada pelas elevadas percentagens de edentulismo apre-
tamentos em saúde oral. Exemplo disso é um estudo relativo à sentadas. Apesar da condição de deficiência intelectual leve,
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população Portuguesa, no qual os autores verificaram uma a população em estudo apresenta uma clara perceção das suas
maior prevalência de escovagem dentária (77,3% vs 68,9%), de necessidades de tratamento e do estado da sua saúde oral.
utilização de fio dentário (29,3% vs 17,6%), de elixir oral (52,4% Evidencia -se, em ambas as populações, uma maior preocupa-
vs 40%) e de visitas ao consultório médico -dentário duas ou mais ção e cuidado do género feminino com a saúde oral.
vezes por ano (26,4% vs 19,1%) no género feminino.
No que diz respeito ao número de dentes que os indivíduos
apresentam na cavidade oral, 10% dos indivíduos da amostra Responsabilidades éticas
sem deficiência apresentavam menos de 20 dentes, já no que
se refere à população com deficiência intelectual, 32,9% dos Proteção de pessoas e animais. Os autores declaram que para
indivíduos apresentavam menos de 20 dentes. Tal situação esta investigação não se realizaram experiências em seres
pode dever -se, entre outras possíveis causas, à escassa procura humanos e/ou animais.

