Page 34 - RPIA_25-3
P. 34

Luís Taborda Barata





            O desenvolvimento de anticorpos monoclonais       tempo, apenas as células híbridas conseguem sobreviver
               1986 marca a aprovação do primeiro anticorpo mo-  à base do melhor que as células B têm para oferecer (a
            noclonal para uso terapêutico (Orthoclone OKT3) e que   capacidade de sintetizar o ADN mesmo em meios como
            permitiu prevenir a rejeição de rins transplantados, em   o HAT) e o melhor que as células do mieloma podem
            casos de doentes que resistiam à terapêutica imunossu-  aportar (a quase -imortalidade). Uma parte destas células
                          9
            pressora habitual . Mas como é que se chegou aqui? Atra-  híbridas produz anticorpos específicos contra os antigé-
            vés da junção de duas técnicas fundamentais: a primeira   nios usados para a sensibilização. Os passos seguintes
            já é nossa conhecida, a técnica de transfeção de genes de   consistem na seleção adicional, em diversas fases, das
            interesse através de plasmídeos. A segunda resultou da   células B com maior afinidade para o antigénio, através
            técnica de produção de anticorpos resultantes de apenas   da técnica de diluição limitante que permite acabar por
            um clone de células B – a tecnologia dos hibridomas, com   ter apenas clones de células com maior afinidade para o
                                        10
            resultados demonstrados em 1975 . Esta técnica consis-  antigénio sensibilizante. Uma vez confirmada a presença
            te em imunizar ratinhos com antigénios contra os quais   de clones de células híbridas que produzem “bons” anti-
            se querem desenvolver anticorpos. Após algumas sema-  corpos, induz -se a proliferação in vivo ou in vitro desses
            nas, sacrificam -se os animais e retira -se o baço, fonte   clones produtores de anticorpos com a mesma especifi-
            ideal de linfócitos B produtores de anticorpos. Seguida-  cidade e afinidade – os anticorpos monoclonais.
            mente, isolam -se e incubam -se essas células B com célu-  Aqui começa o “casamento” entre a técnica de hibri-
            las B tumorais imortalizadas, de uma linha celular de   domas e as técnicas de engenharia genética. De facto,
            mieloma. Esta incubação é efetuada em polietilenoglicol,   pode -se “otimizar” a produção de anticorpos monoclo-
            que favorece a fusão celular entre os dois tipos de células.   nais se se amplificarem os genes das regiões variáveis (V)
            Contudo, essa fusão não ocorre em todas as células e,   dos anticorpos obtidos pela técnica de hibridoma e se
            assim, acaba -se por obter três populações de células:   depois estes forem transfectados para bactérias, para uma
            linfócitos B de ratinho e células de mieloma, que não se   produção em larga escala. Finalmente, é necessário ras-
            fundiram entre si, e células híbridas, resultantes dessa   trear os anticorpos produzidos pelas bactérias e identi-
            fusão. Em seguida, colocam -se todas as células num meio   ficar os que têm a maior afinidade – anticorpos monoclonais
            agressivo (meio de hipoxantina -aminopterina -timidina;   de 1.ª geração 11,12 .
            HAT). Este meio de cultura, através da aminopterina,
            inibe o metabolismo dos folatos, o que bloqueia a sínte-  As novas gerações de anticorpos monoclonais
            se de ADN de novo. Contudo, a hipoxantina (derivado   Os anticorpos monoclonais com origem em ratinho
            purínico) e a timidina (um desoxinucleosídeo) presentes   têm, contudo, vários problemas que dificultam o uso tera-
            no meio de cultura podem ser usadas para um metabo-  pêutico em humanos: grande imunogenicidade (com pro-
            lismo normal do ADN, nas células que têm o material   dução rápida de anticorpos anti -Igs de ratinho); semivida
            enzimático necessário (timidina quinase). Ora as células   curta; e baixa capacidade de ativação de funções imunitá-
            do mieloma contêm uma mutação na timidina quinase   rias através da região Fc, pois recetores para Fc ou o
            que não permite a construção de ADN a partir da hipo-  complemento humanos ligam -se com muito pouca afini-
            xantina e timidina. Por outro lado, as células B contêm   dade a estas regiões de Igs de ratinho. Idealmente, os lin-
            os enzimas necessários à sobrevivência num meio HAT   fócitos B usados para criar os hibridomas deveriam ter
            mas, ao contrário das células tumorais imortalizadas,   origem humana, mas a produção de anticorpos monoclo-
            morrem após um determinado número de ciclos de pro-  nais humanos, pela técnica de hibridomas, mostrou -se
            liferação (a chamada “Lei da Vida”). Assim, após algum   muito complicada. Assim, uma vez mais, foi a engenharia


    160

            REVIST A POR TUGUESA DE IMUNO ALERGOLOGIA
   29   30   31   32   33   34   35   36   37   38   39