Page 33 - RPIA_25-3
P. 33
CONCEITOS SUBJACENTES À UTILIZAÇÃO DOS MEDICAMENTOS BIOLÓGICOS / ARTIGO DE REVISÃO
Os vários tipos de medicamentos biológicos em cultura, permitem a inserção desses genes no seu
Os medicamentos biológicos podem ser classificados genoma, passando a produzir as respetivas proteínas
6
de diferentes maneiras mas, de forma geral, envolvem em elevada quantidade . Nos biofármacos de primeira
hormonas (insulina, eritropoietina), hemoderivados, fa- geração, os genes inseridos não eram artificialmente
tores de coagulação e anticoagulantes recombinantes, modificados por engenharia genética dirigida. Assim, as
fatores de crescimento hematopoiético, enzimas, citoci- proteínas produzidas pelas bactérias continham uma
nas (interferões, interleucinas), medicamentos imunoló- estrutura aminoacídica sobreponível à das proteínas
gicos variados (soros, vacinas recombinantes), anticorpos humanas “naturais” respetivas. Contudo, seria desejável,
monoclonais, proteínas recombinantes, medicamentos em certos caso, produzir proteínas “melhoradas” que
envolvendo oligonucleotídeos anti -sense (ligam -se a demonstrassem maior eficácia e especificidade de ação,
mRNA, bloqueando -o) e mesmo terapêuticas de base bem como menor quantidade de efeitos secundários e
celular . capacidade de activar uma resposta reativa do sistema
4
É também possível restringir -se o conceito de biofár- imunitário contra elas (imunogenicidade). Assim, surgi-
macos a uma definição mais restrita, que envolva apenas ram os biofármacos de segunda geração, nos quais se
aqueles que modulam o funcionamento do sistema imu- introduziam modificações génicas que conduziam a al-
nitário, diminuem respostas inflamatórias ou apoiam terações na estrutura primária de proteína produzida.
respostas específicas contra tumores. Como exemplos, temos as proteínas de fusão de uma
fração Fc de uma cadeia pesada de imunoglobulina, com
um recetor para um antigénio de interesse – quimeris-
OS VÁRIOS ASPETOS DE UMA EVOLUÇÃO mo molecular.
E como é possível transferir os genes de interesse
Aspetos gerais para as bactérias que irão produzir as proteínas respeti-
A utilização de medicamentos biológicos, em termos vas em grandes quantidades? Essa transferência, ou trans-
mundiais, tem vindo a ganhar um peso crescente. De feção, implica arranjar uma estrutura “transportadora”
facto, em 2017, os biofármacos constituem cerca de 20% que permita inserir os genes. Esses transportadores têm
do mercado mundial de medicamentos, o que equivale a variado ao longo do tempo, mas envolvem variantes de
cerca de 221 mil milhões de dólares . Há mais de 250 plasmídeos (porções de ADN bacteriano circular) e de
5
medicamentos biológicos no mercado e mais de 400 em bacteriófagos (vírus) – cosmídeos -fosmídeos, ou fagemí-
ensaios clínicos de diferentes fases, o que corresponde a deos. Qualquer um destes tipos de vetores permite a
cerca de 1/3 do total de medicamentos em desenvolvi- integração de genes de interesse (modificados ou não)
mento. De forma igualmente relevante, os anticorpos no ADN de células hospedeiras. Os plasmídeos permitem
monoclonais, que constituem a maior parte dos medica- a inserção de fragmentos génicos claramente inferiores,
mentos biológicos, também têm conhecido um incremen- em tamanho, aos que permitem os bacteriófagos. De
to muito significativo do seu uso. qualquer forma, há dois períodos que foram fundamentais
no desenvolvimento deste tipo de tecnologia. Em 1973,
A evolução conseguiu -se transfetar E. coli com plasmídeos construídos
A tecnologia usada no desenvolvimento de medica- in vitro e que incluíam genes, para a resistência a antibió-
7
mentos biológicos envolve a transferência de genes ticos . Em 1979, conseguiu -se aplicar esta tecnologia à
humanos que codificam proteínas de interesse para produção da primeira hormona humana recombinante
bactérias, leveduras ou outros sistemas orgânicos que, – a insulina .
8
159
REVIST A POR TUGUESA DE IMUNO ALERGOLOGIA

