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34 rev port estomatol med dent cir maxilofac. 2018;59(1):30-35
As alterações da cavidade oral decorrentes da quimiotera- serviço, com preparo de boca antes do início do tratamento,
pia levam, na maioria das vezes, a um agravamento do quadro com raras exceções. 4,6
geral desses pacientes, havendo a possibilidade de interrupção A terapia com laser de baixa intensidade tem mostrado
do tratamento (tal interrupção diminui o controle da patologia redução dos danos da mucosite nesses pacientes, pois o laser
podendo levar o paciente ao óbito) e consequentemente, au- aumenta a divisão celular e a produção de colágeno. Nos teci-
mento do tempo de internação hospitalar e dos custos, além dos gengivais, a aplicação de laser de baixa intensidade tem
de ser considerada a causa mais comum de dor oral nesses estimulado a síntese de DNA de fibroblastos sem alterações
pacientes, que atingindo níveis significativos comprometem a degenerativas, transformando os fibroblastos em miofibro-
nutrição, pois o desconforto provocado pode levar o paciente blastos que podem promover o reparo tecidual, além da mo-
a aumentar a ingestão de alimentos pastosos ricos em saca- dulação dos nocireceptores pela modificação da condução
rose 9 -14 . Destaca -se dentre essas alterações orais as mucosites nervosa com a liberação de endorfinas e encefalinas. 13,15
(72,1%, no presente trabalho). 1 -14 A hiperemia foi a segunda manifestação oral mais fre-
A mucosite possui etiologia multifatorial, e sua prevalên- quente desse estudo. 8 ,9 A hiperemia consiste em um aumen-
cia é elevada em pacientes que se submetem a quimiotera- to do volume sanguíneo em um determinado local, que pode
17
pia. 1,14 O metotrexato (MTX) é uma das drogas mais utiliza- ocorrer devido à leucopenia após a quimioterapia intensiva.
das em crianças com leucemias, é um antagonista do ácido Já a xerostomia em terceiro é um efeito colateral associado a
fólico, inibe a reprodução celular e apresenta seletividade algumas drogas da quimioterapia que alteram as funções das
parcial para células tumorais e toxicidade contra células nor- glândulas salivares, que pode cessar logo após o término do
mais de rápida proliferação, como as células do trato gastrin- tratamento. 8,15
testinal e da mucosa oral, assim a fase inicial da mucosite A frequência do acometimento por petéquias deste estudo
oral ocorre geralmente imediatamente após a administração foi condizente com a literatura. 9,10 Sabe -se que as petéquias
do MTX. 2,12 podem se desenvolver devido à trombocitopenia, e isso se jus-
As hipóteses diagnósticas do CD diante do sangramento e tifica tanto pelo tratamento antineoplásico, que afeta a proli-
do aumento gengival podem levá -lo a suspeitar que sejam de- feração das células epiteliais, o que resulta em atrofia do epi-
correntes de periodontite, pois o acúmulo crônico de biofilme télio tornando -o suscetível a traumas, quanto pela própria
associado a pobre higiene bucal pode levar a este quadro clí- trombocitopenia. 14
nico, mas o paciente pode apresentar os mesmos sinais de A candidíase é uma das principais infecções oportunistas
sangramento e crescimento gengival com uma excelente hi- observadas, causada pela Candida albicans, nesse estudo teve
giene bucal. 4,6,10 -13 uma frequência relativamente baixa, que pode ser explicada,
A mucosite se caracteriza por úlceras dolorosas que podem pela qualidade o acompanhamento odontológico. 4,6,10
acometer todos os tecidos moles da boca e trato gastrointes- As infecções por vírus também podem causar sérias com-
tinal, constituindo -se como uma resposta inflamatória da mu- plicações nos pacientes em tratamento para leucemia. As que
cosa bucal às altas doses de quimioterapia e/ou radiotera- geralmente ocorrem são as lesões herpéticas pelo herpes sim-
pia. 8 -11 Por provocar uma condição debilitante resulta em uma ples e herpes zoster, sendo o herpes labial a principal infecção
queda da qualidade de vida do paciente. 9 -17 A ruptura da mu- viral nos pacientes em quimioterapia 8,10 . Também podem
cosa durante a mucosite, não apenas resulta em desconforto apresentar sinais sistêmicos de viremia, incluindo mal -estar
significante como também destrói a integridade da barreira e anorexia. 8 ,9
imunológica, podendo causar sepse. 12,18 A clorexidina 0,12% também foi utilizada, mas não preveniu
A mucosite, como nessa pesquisa, é mais presente no sexo a instalação da mucosite oral, porém, devido a sua ação anti-
feminino. 2,13,17 As mulheres parecem ser mais suscetíveis a microbiana, ele pode diminuir a gravidade das lesões, favore-
mucosite do que os homens, possivelmente por questões hor- cendo o quadro clínico e o estado nutricional dos pacientes. 15
monais, mas não há nada comprovado. Dessa forma, é possível Cabe ressaltar que nesse estudo o número de prontuários
que gênero desempenhe um importante papel como um fator incompletos, representando uma limitação desta pesquisa.
de risco independente e como preditivo para a mucosite oral. 17 Isso parece ser uma prática comum nessa modalidade de pes-
Com relação à idade, os pacientes que estavam na faixa quisa. 16
etária de 0 -9 anos tiveram uma prevalência maior de mucosi-
te (74,2%), fato concordante com a literatura. 8 -11 Isso se pode
se justificar pela alta atividade mitótica das células dos tecidos Conclusão
bucais de crianças de até 12 anos, tornando esse epitélio mais
sensível a toxicidade da quimioterapia, alterando a prolifera- Com base nos resultados obtidos nesse estudo, fica evidente a
ção celular, com consequente atrofia e perda da barreira me- alta ocorrência de lesões orais durante o tratamento antineo-
cânica da mucosa. 12,13 plásico. As mais prevalentes nesta amostra foram: mucosite e
Em busca de melhorar entendimento da mucosite a OMS hiperemia. Associação entre a mucosite e o sexo foi observa-
passou a avaliar o paciente de acordo com a aparência da da, sendo o feminino mais afetado.
mucosa, os sintomas e a manutenção da função, variando de As alterações orais podem ser evitadas ou minimizadas
Grau 0 (quando não há evidência de lesão) até Grau 4 (com pelo CD, pois esses desempenham um papel fundamental no
úlceras confluentes e a nutrição é parenteral). 8 -11,17 Para este manejo das crianças com LLA, diminuindo as morbidades re-
estudo, as lesões menos severas foram as mais frequentes, lacionadas às complicações bucais, aumentando o conforto e
provavelmente pelo protocolo clinico de prevenção usado no a qualidade de vida dos pacientes.

