Page 55 - Albeitar_15-3
P. 55

51




          cados ao diagnóstico laboratorial, sendo difícil obter
          dados oficiais de cada país. Não obstante, na maior
          parte dos estudos reportados, o aborto enzoótico
          ovino, causado por Chlamydia abortus, é a principal
          causa de aborto ovino na Europa.
          O aborto enzoótico ovino


          A bactéria intracelular obrigatória Chlamydia abor‑
          tus (anteriormente  Chlamydophila abortus) é o
          agente etiológico do aborto enzoótico dos pequenos
          ruminantes, ou mais conhecido como aborto enzoó-
          tico ovino (AEO). A doença foi descrita pela primei-
          ra vez na Escócia em 1936, mas foi apenas em 1950
          que Stamp descreveu a natureza infeciosa do AEO.
          Esta doença, de nível mundial (à exceção da Austrá-
          lia e Nova Zelândia), foi descrita como sendo a prin-
          cipal causa de aborto infecioso em pequenos rumi-
          nantes em vários países como o Reino Unido, França,
          Holanda, Alemanha e também Espanha onde se   Figura 2. Esquema onde são representadas as principais metodologias utilizadas no diagnóstico
          atingem taxas de entre 35 -65% dos abortos diagnos-  laboratorial do AEO em função das amostras recolhidas após um surto abortivo.
          ticados, de acordo com a região no estudo. Embora
          o aborto (Figura 1) seja o sinal clínico mais evidente
          da infeção por C. abortus, por vezes esta também   três anos posteriores, favorecendo desta forma a ma-
          pode ocasionar epididimite, artrite, conjuntivite e   nutenção e a disseminação da doença no rebanho
          pneumonia.                              afetado e dificultando a sua erradicação. As fêmeas
                                                  que abortam apresentam descargas vaginais, sendo as
          Epidemiologia                           principais responsáveis pela transmissão da doença.
                                                  Nas ovelhas, a excreção de clamídias é produzida mas-
          O AEO afeta principalmente o gado ovino, embora   sivamente no momento do aborto e nos 2 dias seguin-
          também possa afetar o gado caprino. Aparece pela   tes, depois continuarão a excretar através da vagina de
          primeira vez numa exploração quando são introdu-  forma intermitente durante mais 2 a 4 semanas.
          zidos animais de reposição portadores assintomáticos   O contágio pode produzir -se por via oronasal me-
          de C. abortus. No início os abortos aparecem de   diante a ingestão de clamídias presentes na água ou
          forma isolada, mas rapidamente podem aumentar   na comida contaminadas ou devido a lamber e inge-
          chegando a afetar entre 30 -40% dos animais de todas   rir restos placentários. De forma pouco significativa,
          as idades. A esta elevada percentagem de abortos   são descritas como vias de transmissão a via venérea.
          soma -se uma elevada mortalidade dos cordeiros, a
          redução drástica na produção láctea da exploração e   Patogénese e manifestações
          complicações que podem ser causa de infertilidade,   clínicas
          o que implica importantes perdas económicas.
            Nos países em que o cio das ovelhas é sazonal, as   Quando a infeção se produz em fêmeas não gestantes,
          fêmeas apenas são suscetíveis de contágio no final da   as clamídias ficam alojadas de forma latente nos nó-
          gestação, não ocorrendo o aborto nesse momento.   dulos linfáticos até à gestação seguinte. Quando as
          No entanto, as fêmeas infetadas permanecem como   ovelhas estão em período de gestação, as alterações
          portadoras latentes da infeção, até que o micro-  que afetam a placenta só são evidentes a partir do dia
          -organismo seja reativado na gestação seguinte, e na   90 da gestação, coincidindo com as alterações hormo-
          maioria dos casos as fêmeas abortam duas ou três   nais. A partir deste dia, as clamídias multiplicam -se de
          semanas antes da data prevista do parto. Em algumas   forma massiva na placenta, ocasionando importantes
          situações, as fêmeas afetadas parem no final do tem-  alterações patológicas na união feto -placentária, o que
          po, mas os seus cordeiros nascem mortos ou muito   levará ao aparecimento de abortos nas etapas finais da
          fracos e morrem poucos dias depois ou sofrem um   gestação, entre os dias 125 a 140.
          atraso considerável no crescimento.      Os abortos são produzidos como consequência da
            Após o aborto, é induzida uma resposta imunológi-  destruição do epitélio coriónico da placenta tanto
          ca protetora que protege as fêmeas infetadas de abor-  pela parte materna como fetal, a trombose vascular
          tos sucessivos, embora continuem a excretar C. abor‑  dos cotilédones afetados e os processos inflamatórios
          tus ocasionalmente durante os partos e nos cios nos   que são induzidos na fêmea e no feto. Quando a

                                                              ’3
   50   51   52   53   54   55   56   57   58   59   60