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          verdade, o ar inalado é aquecido e humidificado por   III. Frio: por um efeito deletério direto na imuni-
          contacto com as mucosas nasais. Durante este con-  dade nasal e na depuração mucociliar.
          tacto, o ar é carregado com microgotículas e as gotí-  IV. Infeções concomitantes: em geral, quando o
          culas mais finas (<5 µm) podem alcançar os alvéolos   organismo está infetado por outras classes de agentes
          sem qualquer contacto com o trato respiratório infe-  patogénicos (vírus ou parasitas) ocorre uma mudan-
          rior. Assim, as Mannheimia mais virulentas invadem   ça na resposta imunitária para mecanismos menos
          as mucosas nasais, as bactérias mais agressivas atin-  eficientes contra bactérias.
          gem os alvéolos e ultrapassam as defesas traqueo-  V. Qualidade do ar: amoníaco, partículas orgâni-
          brônquicas.                             cas, etc.
            A barreira das mucosas nasais é suportada pelas   A consequência principal da redução das defesas
          defesas traqueobrônquicas. O epitélio do trato res-  respiratórias é a possibilidade de a Mannheimia hae‑
          piratório inferior proporciona dois mecanismos   molytica colonizar os alvéolos. A nível alveolar, a
          complementares que estão bem adaptados para   bactéria tem de lidar com os macrófagos alveolares
          combater as Pasteurellaceae: a “escada rolante”   e depois com os neutrófilos quando a inflamação é
          mucociliar e a secreção de moléculas de defesa (pép-  despoletada. O problema principal é que a Mannhei‑
          tidos antimicrobianos traqueais, PAT). A “escada   mia haemolytica está perfeitamente equipada para
          rolante” é bastante eficiente. Os estudos demons-  resistir a estas células, e utilizando armas específicas,
          tram que 90% das Mannheimia instaladas no trato   torna a imunidade celular eficiente numa reação de-
          respiratório são removidas após apenas 4 horas   letéria inútil. Para saber os principais fatores de viru-
          (Caswell, 2014). Além da sua ação mecânica, o   lência da Mannheimia haemolytica é necessário
          epitélio segrega PAT, como as ß -defensinas. Estas   compreender a patogénese e reforçar a prevenção da
          moléculas são especializadas na destruição de bac-  mannheimiose.
          térias pela formação de poros na sua membrana. As   Os fatores de virulência são numerosos, mas 3
          Pasteurellaceae são muito sensíveis aos PAT (a   deles são cruciais durante a infeção:
          Mycoplasma bovis é naturalmente resistente à PAT,   I. A leucotoxina (Lkt): este é o fator de virulência
          o que se torna numa vantagem na colonização pul-  mais importante da Mannheimia (Zecchinon et al.,
          monar).                                 2005). Efetivamente, a utilização de estirpes mais
                                                  virulentas de Mannheimia experimentalmente deple-
          Mannheimia haemolytica:                 tadas de Lkt demonstra que a doença induzida pela
          um agente patogénico                    sua inoculação é bastante menos crítica do que a
                                                  induzida pela infeção de controlo. Além disso, os
          Desta forma, o principal fator despoletador da man-  anticorpos específicos de Lkt são conhecidos por
          nheimiose é a perda da homeostase hospedeiro/  proporcionarem uma proteção clínica de boa quali-
          bactérias. Vale a pena referir que, na maioria dos   dade.
          casos, mesmo quando a mannheimiose aparenta ser   A ação principal da toxina é induzir a necrose dos
          epidémica, as Mannheimia encontradas nos pulmões   leucócitos. Os neutrófilos bovinos são as células mais
          são específicas de cada animal (Timsit et al., 2013).   sensíveis (os macrófagos de vacas adultas são menos
          Consequentemente, poderia afirmar -se que a Man‑  sensíveis).
          nheimia haemolytica não é responsável por surtos,   A Lkt é produzida massivamente durante a fase
          mas que a verdadeira origem do problema é o enfra-  logarítmica precoce do crescimento bacteriano. A
          quecimento da imunidade. A gestão a longo prazo   produção aumenta quando a concentração de oxigé-
          das doenças respiratórias ao nível das explorações   nio é reduzida. Como consequência, a quantidade de
          reside na compreensão das causas principais da falha   toxina segregada na população comensal é bastante
          das defesas respiratórias.              baixa. Por outro lado, a produção atinge o máximo
            As possíveis origens da diminuição da imunidade   quando as bactérias colonizam os pulmões e as lesões
          respiratória são diversas (Caswell, 2014):  inflamatórias reduzem a concentração de oxigénio
            I. Vírus respiratórios: o estado inflamatório que   nos alvéolos.
          induzem nas mucosas nasais promove a seleção de   As lesões tecidulares induzidas por Mannheimia
          bactérias mais resistentes que pertencem aos seroti-  haemolytica são principalmente consequência da li-
          pos mais patogénicos. Além disso, muitos vírus res-  bertação de enzimas líticas pelos neutrófilos necroti-
          piratórios adquirem a capacidade de destruir a “es-  zados. As lesões pulmonares não são causadas pela
          cada rolante” mucociliar (no caso da infeção por   ação direta das bactérias nos tecidos. Esta ação dele-
          BRSV, a diminuição da depuração mucociliar pode   téria indireta está bem demonstrada por experiências
          atingir 90%).                           de depleção de neutrófilos em vitelos. A infeção ex-
            II. Stress (transporte, stress social, doenças con-  perimental de neutrófilos depletados em vitelos de-
          comitantes, etc.): pela secreção de corticoides endó-  monstra o  resultado  contraintuitivo  da proteção
          genos.                                  contra as lesões fibrinopurulentas típicas. Em conclu-

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