Page 31 - Albeitar_14-1
P. 31
29
verdade, o ar inalado é aquecido e humidificado por III. Frio: por um efeito deletério direto na imuni-
contacto com as mucosas nasais. Durante este con- dade nasal e na depuração mucociliar.
tacto, o ar é carregado com microgotículas e as gotí- IV. Infeções concomitantes: em geral, quando o
culas mais finas (<5 µm) podem alcançar os alvéolos organismo está infetado por outras classes de agentes
sem qualquer contacto com o trato respiratório infe- patogénicos (vírus ou parasitas) ocorre uma mudan-
rior. Assim, as Mannheimia mais virulentas invadem ça na resposta imunitária para mecanismos menos
as mucosas nasais, as bactérias mais agressivas atin- eficientes contra bactérias.
gem os alvéolos e ultrapassam as defesas traqueo- V. Qualidade do ar: amoníaco, partículas orgâni-
brônquicas. cas, etc.
A barreira das mucosas nasais é suportada pelas A consequência principal da redução das defesas
defesas traqueobrônquicas. O epitélio do trato res- respiratórias é a possibilidade de a Mannheimia hae‑
piratório inferior proporciona dois mecanismos molytica colonizar os alvéolos. A nível alveolar, a
complementares que estão bem adaptados para bactéria tem de lidar com os macrófagos alveolares
combater as Pasteurellaceae: a “escada rolante” e depois com os neutrófilos quando a inflamação é
mucociliar e a secreção de moléculas de defesa (pép- despoletada. O problema principal é que a Mannhei‑
tidos antimicrobianos traqueais, PAT). A “escada mia haemolytica está perfeitamente equipada para
rolante” é bastante eficiente. Os estudos demons- resistir a estas células, e utilizando armas específicas,
tram que 90% das Mannheimia instaladas no trato torna a imunidade celular eficiente numa reação de-
respiratório são removidas após apenas 4 horas letéria inútil. Para saber os principais fatores de viru-
(Caswell, 2014). Além da sua ação mecânica, o lência da Mannheimia haemolytica é necessário
epitélio segrega PAT, como as ß -defensinas. Estas compreender a patogénese e reforçar a prevenção da
moléculas são especializadas na destruição de bac- mannheimiose.
térias pela formação de poros na sua membrana. As Os fatores de virulência são numerosos, mas 3
Pasteurellaceae são muito sensíveis aos PAT (a deles são cruciais durante a infeção:
Mycoplasma bovis é naturalmente resistente à PAT, I. A leucotoxina (Lkt): este é o fator de virulência
o que se torna numa vantagem na colonização pul- mais importante da Mannheimia (Zecchinon et al.,
monar). 2005). Efetivamente, a utilização de estirpes mais
virulentas de Mannheimia experimentalmente deple-
Mannheimia haemolytica: tadas de Lkt demonstra que a doença induzida pela
um agente patogénico sua inoculação é bastante menos crítica do que a
induzida pela infeção de controlo. Além disso, os
Desta forma, o principal fator despoletador da man- anticorpos específicos de Lkt são conhecidos por
nheimiose é a perda da homeostase hospedeiro/ proporcionarem uma proteção clínica de boa quali-
bactérias. Vale a pena referir que, na maioria dos dade.
casos, mesmo quando a mannheimiose aparenta ser A ação principal da toxina é induzir a necrose dos
epidémica, as Mannheimia encontradas nos pulmões leucócitos. Os neutrófilos bovinos são as células mais
são específicas de cada animal (Timsit et al., 2013). sensíveis (os macrófagos de vacas adultas são menos
Consequentemente, poderia afirmar -se que a Man‑ sensíveis).
nheimia haemolytica não é responsável por surtos, A Lkt é produzida massivamente durante a fase
mas que a verdadeira origem do problema é o enfra- logarítmica precoce do crescimento bacteriano. A
quecimento da imunidade. A gestão a longo prazo produção aumenta quando a concentração de oxigé-
das doenças respiratórias ao nível das explorações nio é reduzida. Como consequência, a quantidade de
reside na compreensão das causas principais da falha toxina segregada na população comensal é bastante
das defesas respiratórias. baixa. Por outro lado, a produção atinge o máximo
As possíveis origens da diminuição da imunidade quando as bactérias colonizam os pulmões e as lesões
respiratória são diversas (Caswell, 2014): inflamatórias reduzem a concentração de oxigénio
I. Vírus respiratórios: o estado inflamatório que nos alvéolos.
induzem nas mucosas nasais promove a seleção de As lesões tecidulares induzidas por Mannheimia
bactérias mais resistentes que pertencem aos seroti- haemolytica são principalmente consequência da li-
pos mais patogénicos. Além disso, muitos vírus res- bertação de enzimas líticas pelos neutrófilos necroti-
piratórios adquirem a capacidade de destruir a “es- zados. As lesões pulmonares não são causadas pela
cada rolante” mucociliar (no caso da infeção por ação direta das bactérias nos tecidos. Esta ação dele-
BRSV, a diminuição da depuração mucociliar pode téria indireta está bem demonstrada por experiências
atingir 90%). de depleção de neutrófilos em vitelos. A infeção ex-
II. Stress (transporte, stress social, doenças con- perimental de neutrófilos depletados em vitelos de-
comitantes, etc.): pela secreção de corticoides endó- monstra o resultado contraintuitivo da proteção
genos. contra as lesões fibrinopurulentas típicas. Em conclu-
’1

